Pagamentos por conta no IRS: quem paga, quando e como evitar surpresas
Os pagamentos por conta são adiantamentos de IRS que apanham muitos independentes desprevenidos. Saiba quem está obrigado, quando se pagam e como os reduzir.

Por Pedro Ramos Costa
Contabilista Certificado · OCC n.º 97793
Recebeu uma notificação da Autoridade Tributária a indicar valores de "pagamentos por conta" e não sabe do que se trata? Não está sozinho. Este é um dos temas que mais surpreende trabalhadores independentes, sobretudo depois de um ano com bons rendimentos.
Neste artigo explicamos o que são os pagamentos por conta, quem está obrigado, quando se pagam e — importante — em que condições podem ser reduzidos ou até dispensados.
O que são os pagamentos por conta
Os pagamentos por conta são adiantamentos do IRS do próprio ano, exigidos a quem obtém rendimentos da categoria B (rendimentos empresariais e profissionais). A lógica é simples: quem trabalha por conta de outrem vai pagando imposto todos os meses através da retenção na fonte; quem trabalha por conta própria e tem pouca ou nenhuma retenção pagaria o imposto todo de uma vez, no ano seguinte.
Para aproximar os dois mundos, a lei prevê que os independentes antecipem parte do imposto ao longo do ano. Esses adiantamentos são depois descontados no acerto final, quando a declaração de IRS é liquidada.
Quem está obrigado a pagar
Estão sujeitos a pagamentos por conta os titulares de rendimentos da categoria B, quando o imposto apurado na penúltima declaração de IRS, deduzido das retenções na fonte, atinge o valor mínimo previsto na lei.
Na prática, isto significa que:
- Quem teve pouco imposto a pagar (ou reembolso) normalmente não tem pagamentos por conta;
- Quem teve um valor significativo de IRS a pagar, sem retenções suficientes, será notificado dos montantes a adiantar;
- O valor é calculado automaticamente pela Autoridade Tributária com base na última liquidação disponível — não depende dos rendimentos que está efetivamente a ganhar no ano corrente.
Dica fiscal: os pagamentos por conta baseiam-se no passado, não no presente. Se o seu rendimento caiu significativamente face ao ano de referência, pode ter direito a reduzir ou cessar os pagamentos — mas tem de tomar a iniciativa.
Quando se pagam
Os pagamentos por conta são três e vencem-se em datas fixas do ano a que o imposto respeita:
| Pagamento | Prazo |
|---|---|
| 1.º pagamento | Até 20 de julho |
| 2.º pagamento | Até 20 de setembro |
| 3.º pagamento | Até 20 de dezembro |
Os valores constam da demonstração de liquidação do IRS e ficam disponíveis no Portal das Finanças, onde podem ser gerados os documentos de pagamento.
É possível reduzir ou não pagar?
Sim, e este é o ponto mais importante do artigo. A lei permite:
- Reduzir os pagamentos por conta quando o contribuinte verificar que o montante já pago (por conta e por retenção) é igual ou superior ao imposto que será devido no ano;
- Cessar os pagamentos quando deixarem de existir rendimentos da categoria B ou quando se preveja que não haverá imposto a pagar.
Atenção, porém: esta faculdade exige uma previsão honesta e fundamentada. Se limitar ou suspender os pagamentos e, no final, se verificar que afinal havia imposto em falta acima da margem tolerada por lei, são devidos juros compensatórios sobre a diferença.
Dica fiscal: antes de decidir não pagar um pagamento por conta, faça uma simulação do IRS do ano com os rendimentos reais até à data e uma estimativa prudente para os meses seguintes. É um cálculo que vale a pena fazer com apoio profissional.
Como evitar surpresas de tesouraria
O verdadeiro problema dos pagamentos por conta não é o imposto em si — que seria sempre devido — mas o impacto na tesouraria de quem não contava com eles. Algumas boas práticas:
- Depois de entregar o IRS, consulte a demonstração de liquidação e anote desde logo os três prazos (julho, setembro e dezembro);
- Reserve mensalmente uma parte da faturação para impostos, em conta separada;
- Reavalie a meio do ano: se os rendimentos caíram, pondere o pedido de redução; se subiram, reforce a reserva para o acerto final;
- Não ignore as notificações eletrónicas da Autoridade Tributária.
Conclusão
Os pagamentos por conta não são um imposto adicional — são um adiantamento do IRS que já seria devido. Ainda assim, para quem não os antecipa, podem representar um aperto sério de tesouraria em julho, setembro e dezembro. Esquecê-los é, aliás, um dos erros mais comuns no IRS dos independentes.
A chave está no planeamento: saber se está obrigado, conhecer os valores com antecedência e avaliar, com base em números reais, se há fundamento para reduzir ou cessar os pagamentos. Se recebeu uma notificação e tem dúvidas sobre o que fazer, uma análise atempada pode evitar tanto juros desnecessários como pagamentos acima do que seria preciso.
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Pedro Ramos Costa
Contabilista Certificado · OCC n.º 97793
Inscrito na Ordem dos Contabilistas Certificados com o n.º 97793. Acompanha pessoalmente freelancers, empresários em nome individual, pequenas empresas e estrangeiros que se mudam para Portugal, em português, inglês ou espanhol, a partir do escritório em Carnaxide, Oeiras.
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